7 de jul de 2008

DO CAIS AO SERTÕES LITERÁRIOS DO BRASIL

Do cais ao sertão Sertões literários do Brasil
Texto publicado em 01 de Julho de 2008 - 07h20
por Alessandro Atanes *


De suas viagens e de sua literatura pelos sertões Euclides da Cunha escreveu uma vez sobre Vicente de Carvalho, poeta do litoral de São Paulo. No prefácio a Poemas e canções (1908), o autor de Os sertões (1902) comenta a relação de Carvalho com o litoral, o que contribuiu para a formação da imagem de poeta do mar. No mundo que é a literatura, o sertão nomeou o mar.

Em sua desimportância frente aos Sertões e aos Poemas e canções, este simples Porto Literário percorrerá o sentido inverso, em direção ao Centro Oeste para escrever sobre Toada do Esquecido, do escritor mato-grossense Ricardo Guilherme Dicke.

Sendo Euclides da Cunha o fixador literário do sertão nordestino, o sertão de Minas Gerais é a escrita de Guimarães Rosa em Grande sertão: veredas. Por causa da Guerra de Canudos, podemos tomar o primeiro por drama épico, tanto que já foi adaptado ao teatro; o outro, por causa da linguagem que se esparrama pelo sertão, é narrativa poética.

Até aí temos a guerra e a linguagem, duas ações humanas. Já a relação entre o humano e o sagrado é o lugar do mito, que tudo abarca. O romance O salário dos Poetas (2001) e a novela Toada do Esquecido (2006) – ambos de uma escrita de matriz roseana – são assim, abarcadores do mundo. Além da própria estatura literária imensa, a obra de Ricardo Guilherme Dicke ainda sobe nos ombros de Rosa e Euclides.

O sertão da linguagem de invenção de Ricardo Guilherme Dicke reúne tudo. É o sertão amazônico do Mato Grosso, dos campos queimados cortados por estradas percorridas por kombis e jipes que se insinuam até a linha de queimadas que acompanha o horizonte. É um sertão dos dias grandes e das noites escuras; dos garimpos que arregaçam a terra e dos agronegócios que varrem a selva.

No sertão de Dicke, o mito não é só objeto, é também componente narrativo. Um exemplo são os personagens dessas duas histórias, todos arquétipos: temos o general exilado, o poeta com malária e o coveiro filósofo no Salário dos Poetas; e na Toada do Esquecido temos quatro personagens que fogem de um garimpo. Eles acabam de assaltar todo o ouro extraído do lugar e cruzam os “horizontes carbonizados” cada um vestido com uma fantasia: El Diablo, o Cavaleiro, a Morte e Zabud, o deus mesopotâmico das moscas. Sem contar que El Diablo traz um papagaio que não cessa de apontar o horrível do mundo, que a Morte (e depois o Cavaleiro e Zabud) observa continuadamente as horas no pulso, que animais os acompanham num trailer atado ao automóvel, que folhas de dicionário são usadas na limpeza pessoal, que a comida não lhes pára no estômago, que todas as estações nas línguas do mundo sintonizadas no rádio da kombi só trazem notícias, notícias, notícias e nenhuma música.

O objetivo da fuga é alcançar Vila Bela, a primeira capital do Estado, na fronteira com a Bolívia, cidade em que esperam não encontrar o cerco de bandidos, policiais e aventureiros que era preparado nas cidades cortadas pela estrada principal, todos comprados pelos senhores do garimpo.

El Diablo tem razão com seu bendito papagaio: mundo horrível, mundo horroroso, mundo horrendo, mundo hórrido, aqui são esses campos que foram algum dia verdejantes e copados, densos de pássaros cantando, de animais aninhando-se nas suas profundidades, mas que agora são o quê? Nada a não ser desertos, nada mais que desertos, ninhos do silêncio, nada mais que silêncio onde não cai a chuva, de onde fogem todos os seres vivos, que Deus não olha, onde vêm apenas aninhar-se as feras fugidas da chamada civilização, os homens como nós, ah, o horror, horror, horror... E o Cavaleiro suspira e sente fome.

A obra de Dicke ainda reúne o tempo acumulado, desde o massacre da auto-afirmação da República no final do século XIX, que é descrita em jornalismo e literatura por Euclides da Cunha; até a ocupação do sertão da primeira metade do século XX, como praticou o Marechal Rondon e o próprio Euclides da Cunha (os dois foram colegas do curso de Engenharia do Exército, onde o autor chegou a tenente; em 1905, já a serviço do Ministério das Relações Exteriores, ele chefiaria uma missão oficial pelo Rio Purus, nas fronteiras amazônicas).

As missões de ocupação e exploração constituem dois dos aspectos daquele período de acentuado interesse na busca e promoção da identidade nacional no qual também são publicados estudos fundamentais sobre a identidade brasileira (Formação do Brasil Contemporâneo, Raízes do Brasil, Casa Grande e Senzala, todos da década de 30). Marcos da conquista do sertão podemos considerar a construção de Brasília (1960) no plano físico; e, no plano simbólico, a fabulação literária de Guimarães Rosa (seu primeiro livro, Sagarana, é de 1946; o Grande sertão: veredas é de 1956).

A escrita de Dicke, apesar de mítica (na forma e no conteúdo), é também mimética, isto é, tem a capacidade de nos representar o real. Mas não é o real do que “realmente ocorreu” como nos filmes baseados em “fatos reais”, e sim o real dos sentidos: a própria dificuldade de leitura, por um lado, ou os efeitos de calor, imensidão e paralisação do tempo, por outro.

O Cavalheiro olha para o fim da estradinha que se perde no horizonte, por onde sumiu Zabud. A noite vem entrando com seu frio. O som do rádio cada vez diminui mais, a bateria está no fim, o fogo apagou, ninguém está com fome, todos em silêncio sentem a noite cair lentamente, com o lentor das coisas que nunca mudam ou se adiam. Está tão escuro que não se dá para ver mais nada, já não se enxergam entre si, nem o vasto céu, nem a lonjura da terra com seus eternos campos queimados, eternidade de tocos negros que os homens do lado de lá deixaram como marcas de sua passagem. As horas vão se escoando com a mesma lentitude pelo vago funil do tempo que filtra tudo.

Esse é o sertão de Ricardo Guilherme Dicke: um sertão arrasado, ainda que tão imenso.

Referências
Ricardo Guilherme Dicke. Toada do Esquecido & Sinfonia Eqüestre. Cuiabá: Cathedral Publicações e Carlini & Caniato, 2006.

Ricardo Guilherme Dicke. O Salário dos Poetas. Cuiabá: Secretaria de Cultura de Mato Grosso, 2001.

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